
FACTORY OF DREAMS | OUTRAS PULSANTES UTOPIAS
Como projecto de vastas criatividades, FACTORY OF DREAMS apresta-se a distintos ângulos de análise. Uma progressiva entidade vagueante pelo mundo dos sonhos, que se extravasam além-fronteiras, pela ambição do seu criador. Parte da conversa que tivemos com Hugo Flores para a edição de Fevereiro ficou então reservada para este apontamento online
, onde o músico português exprime com mais enfoque outras questões em torno do segundo álbum «A Strange Utopia».
A juntar às componentes lírica e musical, há também uma forte marca visual em «A Strange Utopia». O artwork de Paul Gerrard é algo que te satisfaz e expressa bem as imagens que tinhas visualizado para o álbum?
O Paul conseguiu, de uma forma simples, transmitir as ideias subjacentes a cada música, e isso é, de facto, uma mais-valia no álbum. Fiquei muito satisfeito tanto com a rapidez com que ele trabalhou, como com a qualidade final obtida. Ele é excelente e comparo-o um pouco ao H.R. Giger no impacto visual e na estranheza das suas criações. São como que sonhos obscuros, podia ser fácil dizer pesadelos, mas há uma aura, uma mística muito especial nas atmosferas visuais dele que não se cingem apenas ao género de “terror”. O Paul está envolvido em inúmeros projectos de cinema também, a seguir de perto.
Ao longo do álbum, encontramos vários vocalistas convidados e outros músicos, também. É algo importante para ti, ter mais gente a intervir na gravação? Deles, há alguém que queiras destacar neste novo trabalho?
O primeiro CD, «Poles», é um álbum muito intimista, para mim único e que será sempre especial. É também um disco com 48 minutos de música comparativamente aos 74 minutos de «A Strange Utopia», ou seja, tinha de diversificar – e, aliás, era esse o objectivo. Como tinha a intenção de voltar a trabalhar com a Zara mesmo fora de Project Creation e mantinha contacto com a Gaby Koss, pretendi pôr já em prática estas colaborações. Destacaria a faixa «E-motions», onde a Gaby Koss fez uma óptima interpretação e a «Chaotic Order» e «Inner Station» com a força da Zara. No caso dos instrumentistas, o David Ragsdale é genial, e contribuiu em muito com as suas
performances no violino que se ouve em «Slow Motion World». Grandes melodias! O Tadashi e o Shawn também estiveram muito bem nos solos de teclas. O Shawn ligou o seu
synth a um pedal de guitarra e criou o som distorcido que ouvimos na «Dark Utopia». Devo deixar uma menção também para o solo “louco” na «Slow Motion World», do Tadashi Goto. Ele próprio referiu que foi dos mais complexos que terá feito recentemente.
Se há uma lacuna em «A Strange Utopia», será a produção. O som final do álbum é mesmo o que pretendias ou gostarias de ter tido outras condições para fazer mais captações acústicas – uma bateria não programada, nomeadamente?
Factory Of Dreams tem uma componente electrónica bastante vincada; um som demasiado acústico desvirtuaria o projecto, portanto depende do gosto de cada um. Diversas
reviews ao álbum referem como ponto de destaque a produção, outras referem que o som é um pouco digital/artificial. Tudo OK, mas é o meu estilo. Para o som de Factory não necessito de outras captações, aliás, o método que uso não passa sequer por aí. A bateria não é “programada”, trata-se de um
kit gravado profissionalmente em estúdio e
samplado, sendo a bateria tocada por mim em
pads e outras partes são secções pré-gravadas por outros bateristas, recorrendo novamente ao
kit. Hoje em dia isto é relativamente comum, ou seja, não foi limitação, foi mesmo escolha. Há diversos músicos que admiro e que recorrem frequentemente a
samples de bateria. A inclusão de violinos e guitarra acústica foi só em partes muito específicas e não predominam no álbum. O essencial depois era ter um
layer bem vincado de
synths, guitarra forte e uma voz limpa e definida.
Ainda quanto à música de Factory Of Dreams, quando vês ou ouves descrições, concordas mais com alusões ao som progressivo ou sinfónico? E podemos juntar outras, ligadas ao gótico, female fronted metal, etc...
Bom, o «Poles» para mim é metal atmosférico com uma boa dose de gothic/dark metal. «A Strange Utopia» não será tanto como o anterior, pois já pega nos géneros que falámos e alia-os ao sinfónico e progressivo como bem referiste. Não será, no entanto, uma colagem a estes géneros, pois em Factory Of Dreams, diversos géneros se misturam.
Female fronted… não gosto nada desse termo; há música cantada por vocalistas masculinos ou femininos. Também não temos um
male fronted metal.
Como compositor único, torna-se prático para ti ir juntando as diferentes peças do puzzle sem outros músicos por perto? Por vezes, não é um quebra-cabeças transpor todas as ideias durante o processo de criação/gravação de um tema?...
Por vezes é difícil, sim. É que lidar comigo mesmo não é fácil. [risos] Tenho muitas ideias e gosto de as aproveitar ao máximo. Sinceramente, estou habituado e gosto da maneira como trabalho e acho que consigo ligar as ideias, construindo uma peça de música. Normalmente, vou gravando as ideias todas, vejo o que fará sentido ou não, vou esculpindo, moldando a música e, quando tenho algo de sólido estruturalmente, começo a gravação dos instrumentos, que não sintetizadores. O facto de ser o único compositor dá-me muita liberdade, apesar de, depois os restantes músicos terem, de facto, de se adaptar, mas como estamos a falar em solos instrumentais não é difícil. A Jessica tem também muita liberdade para construir as suas melodias vocais. Posso, em determinados pontos, sugerir algo à Jessica ou indicar um caminho possível, mas não é muito usual.
Este é já o teu quarto trabalho para a ProgRock Records. Consideras que tem sido uma aliança frutífera com a editora norte-americana, inclusive no sentido de “internacionalizar” um pouco os teus álbuns?
Completamente, é a editora ideal para mim. Respeita os músicos, temos liberdade para criar e isso diz tudo. Além disso, é uma editora com força e assegura uma distribuição sólida e promoção eficaz neste género de música.
Nelson Santos
O resto desta conversa – e tudo (ou quase tudo!) – sobre o novo disco dos FACTORY OF DREAMS já está nas bancas, na LOUD! #108
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