
SHRINEBUILDER | CONCÍLIO DOS DEUSES 1.2
«Shrinebuilder», o disco de estreia do projecto com o mesmo nome, reúne sob o mesmo tecto o génio dos The Obsessed, Neurosis, Sleep e Melvins. Na mais recente edição publicámos grande parte da conversa com Scott Kelly, dos Neurosis, metade da dupla de guitarristas que fica completa como Scott “Wino” Weinrich. Al Cisneros e Dale Crover são a secção rítmica, um luxo só ao alcance de alguns. Apesar de o termos acordado, Kelly prestou-se a uma boa entrevista e o resto do que disse é publicado, sem edição, aqui.
O álbum foi lançado pela Neurot, mas aposto que devem ter chovido propostas de outras editoras interessadas em agarrar no projecto.
A verdade é que nem sequer entretivemos durante muito tempo a hipótese de procurar uma alternativa. Falámos sobre isso logo no início, mas chegámos rapidamente à conclusão de que a escolha mais acertada seria a Neurot. Há um elemento da banda que é sócio de uma editora estabelecida, por isso... acaba por fazer todo o sentido. É lógico e é seguro, porque se há algo de que posso ter a certeza é que a Neurot Recordings não me vai roubar... e, acreditem, essa certeza é algo que todos valorizamos imenso. Neste grupo já fomos todos aldrabados a torto e a direito, por isso a confiança que temos entre nós acabou por ter bastante peso na decisão.
O facto de todos os outros elementos da banda estarem contratualmente ligados a outros selos não levantou quaisquer problemas?
Não, houve problema absolutamente nenhum. Neste projecto todos temos liberdade para fazer única e exclusivamente aquilo que quisermos, o que acaba por ser uma bênção... nunca seria nenhum quebra-cabeças. Não há ninguém que esteja ligado a uma multinacional ou que tenha assinado um contrato restritivo seja a que nível for, felizmente. Tenho noção de que se tivesse havido problemas provavelmente não estaríamos a falar agora e o álbum teria demorado muito mais tempo a ser editado. [risos]
Isto tudo porque seria de esperar que tivessem recebido propostas de edição muito interessantes... não desfazendo na Neurot, claro! [risos]
Pois... talvez, não sei. Desta vez não chegámos mesmo a essa fase, mas vamos esperar e veremos o que acontece quando chegar a altura de lançar o próximo álbum. Fiz todos os esforços possíveis para garantir que este primeiro disco sairia pela Neurot porque acreditava realmente que a editora poderia fazer um bom trabalho... sobretudo tratando-se de um álbum de estreia, que é uma espécie de manifesto de intenções. É um momento muito importante e, se as coisas não correrem bem, isso afecta tudo o que se fizer a seguir. Até agora está tudo a correr bem e a decisão foi colectiva, mas se no futuro houver alguém que ache que devemos tentar uma alternativa, penso que logo se verá o que fazemos. A ideia de mantermos as coisas, por assim dizer, “em casa” e perto de nós agrada-nos bastante.
Aí está mais uma prova de que não estão a fazer isto “pelo dinheiro”.
Esse é um dos luxos exclusivos aos músicos que têm de trabalhar para pagar as suas contas – que é o nosso caso.
Continuas, então, a ter o teu trabalho?
Como sempre, sem dúvida. Não vou dizer que não faço dinheiro absolutamente nenhum com a música porque, de facto, faço algum. No entanto, nunca ganhei o suficiente para alimentar uma família com quatro miúdos... tenho quatro filhos e tenho de cuidar deles. Mesmo assim, com a música e com o meu trabalho, estamos sempre nas lonas. Vamos sobrevivendo... não tenho um bom carro, não vivo numa casa bonita e também não tenho dinheiro para pagar a faculdade aos miúdos. No entanto, a música sempre falou mais alto... é algo que tenho de fazer para me manter são. Quem é que quer saber de dinheiro? O dinheiro ganha-se e gasta-se.
Boom, desapareceu. A música estará lá para sempre... a música, para mim, é a fundação da espiritualidade. Nunca fiz música pelo dinheiro.
Em ocasiões anteriores já disseste que o objectivo é deixar uma marca.
Algo desse género, sim. Gosto de captar o momento e deixá-lo lá, como uma marca. Espero que isso sirva de inspiração a outras pessoas ou que, pelo menos, lhes dê oportunidade de se esconderem do dia-a-dia durante umas horas.
Neste momento estás focado nos Shrinebuilder e Neurosis, mas continuas a estar envolvido em outros projectos. O que se passa, por exemplo, com os Blood & Time?
Não sei muito bem o que se passa, para ser muito sincero. A dada altura decidimos fazer uma pausa, mas sei que temos algumas ideias prontas a desenvolver e tudo depende de quando tivermos tempo para nos juntarmos e trabalharmos em qualquer coisa nova. Os Shrinebuilder foram algo que não planeei e, de certa forma, foram uma surpresa... uma boa surpresa, mas que me tem sugado muito tempo e energia. Vamos ver o que acontece.
Tens planos para gravar um disco a solo em breve?
Estou a planeá-lo, mas antes de gravar ainda vou fazer uma pequena digressão pela Europa durante o mês de Janeiro. Vou aproveitar para interpretar algumas das novas canções ao vivo e, claro, também algumas das antigas... acho que vai ser interessante. Infelizmente vou tocar essencialmente no centro da Europa, por isso ainda não é desta que vou tocar a Portugal... as digressões que fazemos são tão curtas, seja a solo ou com os Neurosis, que se torna difícil chegarmos a todos os sítios onde gostávamos de ir.
O que nos podes dizer sobre esse material novo em que estás a trabalhar?
O próximo disco a solo vai ser um bocadinho diferente porque não será totalmente acústico – estou a planear incluir uns temas eléctricos em que tenho estado a trabalhar e gostava de ver como funcionam em concerto antes de os gravar. É por isso que quero fazer esta digressão... depois volto novamente a focar-me no processo de composição, eventualmente acabarei por entrar em estúdio e, se tudo correr bem, o álbum estará pronto durante 2010.
2010, que marca também o vigésimo quinto aniversário dos Neurosis.
É verdade... é inacreditável, não é?
Wow... [risos] Pode dizer-se que temos estado a trabalhar em material novo e estamos a chegar perto do ponto em que podemos realmente começar a andar para a frente. Eventualmente vai haver um novo disco, mas... não sei se estará pronto em 2010. Provavelmente o mais seguro será apontar para 2011. Seria óptimo de tivéssemos um álbum novo para comemorar os nossos primeiros 25 anos de carreira, mas também não vamos forçar nada só para que isso aconteça. Nenhum de nós pode abandonar a sua vida de um momento para o outro para entrar em estúdio, por isso as coisas demoram sempre mais tempo do que seria desejável.
www.myspace.com/shrinebuildergroup
José Miguel Rodrigues
O resto desta conversa – e tudo (ou quase tudo!) – sobre o disco homónimo de estreia dos SHRINEBUILDER já está nas bancas, na LOUD! #106
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