MISSA ORTODOXA: Samain – «Vibrations Of Doom»


SAMAIN
«Vibrations Of Doom»
[Roadrunner Records, 1984]

Hoje trago-vos o esplendor teutónico dos anos 80, que já está há tempo demais sem aparecer nesta rubrica. Para estrear as incursões por terras germânicas, um velho favorito meu: o único álbum dos Samain (tirando um álbum ao vivo que lançaram em cassete no ano seguinte). Fora isto, a sua obra musical consiste apenas em algumas demos, uns vídeos e um single. «Vibrations Of Doom» é um álbum de heavy metal a roçar o hard rock, em que o todo é maior que a soma das partes. Indivudualmente, nada é particularmente brilhante no álbum. A voz de Peter Vorwerk (também conhecido por Peter Ancaster – aparentemente todos tinham nomes fictícios de sonoridade anglo-saxónica) não será uma grande voz sob o ponto de vista técnico, mas tem um carisma muito especial. Algo semelhante se passa com o resto: os temas soam simples, sem grande rapidez, sem grande técnica (apesar dos bons solos), mas têm uma grande força: a música. E que magníficas composições existem neste álbum. Com uma qualidade muito consistente do princípio ao fim, todos os temas têm uma espécie de magia própria, que transparece na entoação vocal mas deve também muito à fórmula que as guitarras seguem. Estas raramente fazem a mesma coisa, contrastando e complementando-se em riffs fortes e muito bem construídos, ao longo de músicas aparentemente simples e até lentas, que no entanto se tornam altamente infecciosas quanto mais se ouvem. A velocidade nunca é algo a que os Samain lancem mão, sendo a melodia o seu ponto forte. Há algo do espírito dos anos 80 encerrado nestas gravações, em que o sotaque carregado e as letras em inglês maltratado de alguma forma se tornam a maneira apropriada de expressar temáticas como as de «Thor», o mais a abrir «Giant Man» ou o magnífico tema de encerramento «The Metal Breaks My Senses».

O metal germânico dos anos 80 em todo o seu fulgor visual.

Não consigo deixar de encontrar verdadeira genialidade metálica quando começo a ouvir temas como «Thank The Aerosmith», «Seven Tears», ou qualquer outro deste álbum, na realidade. Também deve ter sido o caso de Steven Cannon, criador da Vibrations Of Doom, que tirou o nome deste álbum, e que é aparentemente a mais antiga publicação musical exclusivamente online ainda em actividade, tendo tido o seu início no surpreendentemente precoce ano de 1992. Aqui há uns anos já largos, a sua secção de álbuns clássicos em streaming era preciosa para nós, os seguidores mais ortodoxos do som sagrado, antes do YouTube e afins.

Lay down and see, the metal breaks obscurity.

Além disso, os Samain conseguiram um contrato discográfico devido a um acidente pirotécnico, que envolveu um martelo de Thor que explodiu no palco no fim do concerto. O público ficou maluco e o dono da editora também. E um episódio destes é bastante metal!

Só o baixista Karl Emde (à esquerda) é que come com talheres.

E como por vezes acontece (ver a Missa Ortodoxa passada), muitos anos depois reuniram-se para reviver os velhos tempos e deram um concerto final em 4 de Dezembro de 2015, na Alemanha. Também neste caso andam umas filmagens por aí. E foi (dizem eles) a última oportunidade para ver Samain em palco. Felizmente podemos continuar a ouvi-los neste álbum que hoje aqui vos deixo… para quem o quiser descobrir.

É em vinil que estas coisas se devem ouvir! (além disso, este álbum nunca saiu em CD)