TEMA A TEMA: Ravensire – «A Stone Engraved In Red»

Regressa o TEMA A TEMA, uma das nossas rubricas favoritas, e este volume está entregue a uma banda que tem muito o que dizer. Os RAVENSIRE sempre nos forneceram letras e conceitos com uma profundidade histórica e/ou mitológica invulgar, e o novíssimo «A Stone Engraved In Red» não é excepção. Passemos então a pena ao baixista/vocalista Rick Thor, que nos vai explicar em detalhe a história e a inspiração por trás dos oito malhões deste grande disco, editado no passado dia 14 de Junho pela Cruz del Sur.

1. «Carnage At Karnag»
Decidimos fazer um tema sobre Carnac não apenas por se integrar bem no espírito das referências da banda, mas também, e sobretudo, como homenagem ao público francês. Tocámos várias vezes nesse belo país e criámos lá boas amizades. Após um concerto extraordinário em Rennes, quisemos homenagear os excelentes momentos e criámos esta música. Por isso foi uma sensação especial ir tocar ao Courts Of Chaos, na Bretanha profunda, de onde acabámos de voltar e onde tocámos este tema que se refere às monumentais avenidas de menires. Eu e o Nuno ficámos na zona mais uns dias e pudemos visitá-las, bem como outros locais fantásticos como o Cairn de Gavrinis ou a floresta de Huelgoat. Há uma ligação cultural entre os monumentos neolíticos franceses e os que se encontram aqui no ocidente da Península Ibérica, pelo que sentimos lá um misto de familiaridade e novidade. A verdade é que, por questões práticas relacionadas com as fontes literárias, escrevi uma letra evocativa de rituais druidas da Idade do Ferro, milénios posteriores ao momento de erecção dos menires e das câmaras funerárias neolíticas. Mas sabemos que estas pedras nunca perderam uma forte carga simbólica, fosse ela qual fosse, e acho muito interessante reflectir sobre essa longa diacronia.

2. «Thieves Of Pleasure»
Encontrei no museu onde trabalho um pequeno livro que compila obras dos poetas islâmicos do Al-Andaluz, chamado “Ladrões de Prazer”. Senti-me transportado a todo aquele ambiente descrito pelos homens de grande cultura que viveram no sul da Península há coisa de mil anos. Além disso, gosto tanto como qualquer um das histórias dos Vikings e dos Anglo-Saxões, mas irrita-me um pouco o quase monopólio temático que estas exercem nas letras metálicas. A civilização muçulmana era impressionante do ponto de vista histórico e cultural e faz parte integrante da génese deste país, por muito que o Estado Novo tenha criado uma imagem de nós contra eles, Cristãos contra Mouros. Sou frontalmente contra o Islamismo enquanto religião exactamente da mesma maneira que sou frontalmente contra o Cristianismo – são aliás religiões praticamente iguais na sua base (é pena que as pessoas não leiam a Bíblia sem as lentes cor-de-rosa do “estas partes não contam”). Mas esta letra é sobretudo a evocação de um momento literário histórico e de um éden estival e despreocupado, sem o peso da destruição que o atingiria um dia.

3. «Gabriel Lies Sleeping»
Foi a primeira música a ser feita para o novo álbum e a letra surgiu da maneira mais espontânea possível. Estávamos a começar a tocá-la em estúdio e eu estava a gravar o ensaio, como faço por vezes. O resto da malta disse-me para improvisar voz e as primeiras linhas que me vieram à cabeça foram “Gabriel lies sleeping at the edge of the Universe – His breath is mighty as the lightning bolt“. Depois, ao ouvir a gravação, fiz a letra a partir daí. Meti-lhe algumas referências do livro apócrifo de Enoch e ficou um texto sobre a destruição final da humanidade num contexto apocalíptico religioso. Só muito mais tarde, quando um amigo me ofereceu o «Seventh Son Of A Seventh Son» em vinil (que eu só tinha em CD e cassette) é que, ao ouvi-lo, me ocorreu que a linha “Gabriel lies sleeping” vem da «Moonchild». Foi uma coisa absolutamente subconsciente e involuntária. Mas ainda bem.

4. «Dawning In Darkness»
Esta letra foi escrita pelo Nuno, pelo que lhe passo a palavra:
Um amigo meu de longa data, o Hartmuth Schindler (que teve editoras como a Barbarian Wrath, Nazgul Eyrie, entre outras), sofreu há um pouco mais de um ano um acidente enquanto era submetido a uma cirurgia relativamente banal. O corpo entrou em paragem cardio-respiratória e esteve morto clinicamente durante cinco minutos. Os médicos conseguiram reanimá-lo, mas os estragos no cérebro já eram irreversíveis. Ficou em estado vegetativo e a mulher dele, a Cheryl (responsável pela Witches Brew que lançou o nosso single «Tyrant’s Dictum») ficou com a pesada tarefa de cuidar dele, sem perspectivas de melhoria. Toda esta situação pôs-me a pensar em como será estar preso num mundo escuro, sem qualquer perspectiva de voltar a ver a luz, lutando contra o desespero do destino imutável e contra os demónios internos. É precisamente disso que fala esta letra. É uma letra bastante derrotista (embora pelo meio o protagonista procure lutar contra o seu fado) porque, de facto, a vida nem sempre dá finais felizes. Toda a parte vocal segue o que está a ser narrado pela letra (é assim nas nossas músicas), por isso é que no final a voz termina praticamente num lamento. Seja como for, fica a homenagem a ambos que bem merecem pois além de bons amigos, dedicaram a vida toda ao metal.

5. «Bloodsoaked Fields»
(instrumental)

6. «After The Battle»
É uma letra escrita a partir do ponto de vista de um guerreiro moribundo num campo de batalha depois de esta terminar. Pareceu-nos perfeitamente adequado dedicar esta música ao Mark Shelton dos Manilla Road pois, simbolicamente, foi assim que ele se foi… é uma gigantesca perda para o heavy metal, mas há algo poético e, atrevo-me a dizer, apropriado numa tal morte, ao sair do palco após um concerto perante os fãs que ele adorava. Convidámos o James Beattie, vocalista dos Terminus, para fazer aqui uma participação especial, e ele deu um toque muito pessoal à voz e mesmo ao texto que lhe estava destinado. É ele que canta a linha que dá o nome ao álbum. Os Terminus são uma banda irmã de Ravensire e já partilhámos o palco com eles em Dublin… esperamos voltar a cruzar-nos com eles na estrada um dia. Há, explicitamente, algo da mitologia nórdica aqui e também de Robert E. Howard, como é normal nas letras de Ravensire. E fica a nossa emotiva homenagem ao rei do epic metal. Ido mas não esquecido.

7. «The Smiting God»
Há uns anos, um padre extremamente sui generis chamado Padre Fontes (a quem faço uma vénia) revelou uma escultura que tinha sido reutilizada como material de construção na Igreja de São Miguel, em Vilar de Perdizes, e ocultada sob o soalho do balcão do coro. A epigrafia latina conhecida do local permitiu deduzir que se tratará com toda a verosimilhança da representação de um deus supremo ali cultuado, sincretizado com Júpiter em época romana. Este deus, com um falo pronunciado e empunhando um martelo, foi a inspiração para esta letra, enquanto legítimo deus da martelada. Não escondo porém de forma alguma a influência literária medieval irlandesa e galesa que me serviu de base à construção do texto. No fundo tudo vai beber a uma mesma fonte, a grande família mitológica Indo-Europeia.

8. «The Games Of Titus»
Este tema, que encerra o álbum, é totalmente baseado na descrição impressionante que Marcial faz dos cem dias de jogos celebrados no Coliseu de Roma aquando da sua inauguração em 80 d. C., sob a curta vigência do imperador Tito. Vejo-o como uma reflexão sobre a trágica condição humana que é a nossa, uma vez que a cultura greco-romana é a base principal da nossa própria civilização e, sob a superfície, muito pouco mudou. E o que mudou, por via da moral cristã, foi geralmente para pior. Homo homini lupus est… os ventos políticos que sopram por sobre o mundo são pestilentos, prolifera a moral, que deve ser destruída, e despreza-se a ética. Há que demolir o sistema. Mas sou pessimista. Os impérios caem sempre… o actual também cairá um dia. O problema é de que forma acontecerá esta inevitabilidade.